quarta-feira, 18 de novembro de 2015
CREIO EM DEUS
Creio no guarda de Israel, que não dormita, testemunha celeste de minhas madrugadas. Creio no Deus consolador, que suaviza a dor e me consola a alma frente às amarguras e às contradições desta vida.
Creio num Deus encorajador, que me acode nos dias sombrios, de desânimo e desapontamento. Ele levanta o caído, consola o desesperado, salva o Creio num Deus real, que se manifesta por seu Espírito, sua essência – sua identidade essencial –, Ele mesmo. Não havendo outro ser pleno e a ele correspondente exato, faz-se, Ele mesmo, “autocomunicação” no Filho e no Espírito. É essa evidência, sustentadora da fé, cognição e experiência – conhecimento por semelhança ou representação do objeto, e convivência, o que torna real, quase palpável, esse objeto. Não há não-crer, quando se capta e se vive a experiência da comunhão. Só mesmo uma graça especial torna aplicáveis os valores do divino à esfera do humano.
À face de uma singular experiência que envolveu a perda de bens e filhos, às dissimulações de seus amigos e à incredulidade e insanidade da própria esposa, o resignado patriarca Jó declara: “Eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levanrará sobre a terra” (Jó 19.25). Às suas palavras faz altissonante eco o Apóstolo Paulo: “Eu sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele Dia” (2Tm 1.12), depois de desfilar seus sofrimentos por causa do Evangelho. Esses textos conferem um refrescor extraordinário à alma sofrida em meio aos revezes existenciais.
Ilustrado e apreciado pregador, o Pastor Paschoal Piragine declarou, em um de seus sermões: “Não dá para viver uma fé genuína sem que nalgum momento da vida a nossa fé seja provada”. Neste espírito e nesta consciência,
Max Lucado escreveu: “Sábios são aqueles que estão acima de suas feridas”. Adusa-se, na mesma linha de raciocínio: àqueles que são abastecidos pela graça de Cristo, as feridas atingem-lhes o corpo sem desfigurar-lhes a alma. Nossas virtudes interiores, geradas na comunhão do Espírito Santo, não se deslustram por vicissitudes quaisquer da vida, mesmo as mais amargas e depreciadoras.
Lembra-nos inspirada e inspiradora letra de um hino antigo, alusivo ao sacrifício de Cristo na cruz: “Feriram seu corpo, mas não seu amor”. Sua alma intristeceu-se, mas seu querer restaurador não se abalou.
Assim, mantenho-me firme, nesta fé e nesta relação “divino-humana”. Esta possibilidade é, já, produto consumado da Excelsa Graça. Minha âncora segura.
Válter Sales, em 18.11.2015
domingo, 30 de agosto de 2015
EPIFANIA NA CAPUNGA
Um a mais, e mais que isso: um culto solene, reservado à
celebração da Ceia do Senhor. Vezes – muitas! –, vezes sem conta a cena se
repete, que não é mera repetição – “...todas
as vezes..., em memória de mim”. A memória é atemporal e será sempre
atualização, presentificação do Ser, sem perda da verdade teológica. Fazer
culto é fazer teologia. Adorar é levar em conta a realeza daquele a quem se
adora. Faz bem participar de um evento que assim se preze.
O culto começa com a inspiração dos filhos de Corá, no
Salmo 84. Como transpira, luminosa, a
asseveração de que “...o Senhor dará
graça e glória (...) aos que andam em
retidão”, e como somos induzidos pela unção própria da Palavra a elevar a
alma, com Fanny Crosby, e dar glória a Deus!
Como se trata de um culto de Ceia do Senhor, e da Igreja
de Cristo, é natural que se fale da rude cruz, agora contemplada, em memória,
para que nos lembremos da graça e do amor indescritível de Deus. E aí, entra um
momento de raríssima graça e singeleza – o amado Pastor Feliciano Amaral canta,
para enlevo de todos, O Amor de Deus,
peça imortal de nossa hinódia, copyright de 1917, reformado em 1945 por F. M.
Lehman. É o amor de Deus, que lira alguma conseguirá traduzir, pois que vai
além do infinito céu e, à nossa vista, distende-se por sobre um mar sem fim,
que aponta para os “mares” profundos de nossa realidade.
Lembra-me a encantadora experiência, dos anos idos de
1959, decurso de 1960, quando minha família se transferia da pacata Sertânia
para a futurista Paulo Afonso, na Bahia. Logo, um servo do Senhor, colega de
trabalho de meu pai, e que o evangelizara, conduziu-nos à Primeira Igreja
Batista. Todos em pouco tempo nos havíamos tornado membros da Igreja pelo
batismo. Dezessete anos depois, um dos filhos do irmão Heleno José da Silva,
nosso pai na fé, e eu, fomos sabatinados por um concílio de pastores, com
vistas ao pastorado, sob a presidência do reitor do nosso seminário, Dr. David
Mein. A história, sob Deus, é, por vezes, escrita de forma ininteligível;
porém, no tempo certo, Deus mesmo a torna inteligível, clara, afirmativa,
dentro de seus insondáveis propósitos. Ainda na Bahia, Feliciano Amaral era-nos
uma inspiração. Era conhecido como o “Rouxinol das Alterosas”. Sua voz doce, a
leveza do seu cantar, produziam em nossa vida uma elevação espiritual
sinalética da própria grandeza da vocação cristã.
Recordar é viver, diz o brocardo. E a vida emerge solene,
grave, ungida, na exposição da mensagem extraída de um modelo testemunhal posto
como exemplo para a Igreja de hoje. É a consciência da hora e a chamada na hora
certa – o estarmos sempre em sintonia com o Altíssimo. A sabedoria e o espírito
refinado do pregador, que se baseou em Atos capítulo 8, fizeram-no substituir “eunuco”
por “etíope”. É de todo mais indicado. Fê-lo bem! Homilética é também ética e
estética. A culminância estava reservada justamente para a exposição bíblica, a
ser ainda comentada.
Por alguns momentos o culto parece imergir na cena
trevosa do Gólgota. E não poderia mesmo
não ser. Lá, na cruz – a nossa cruz –, o Filho de Deus foi cravado, e lá
permaneceu por horas infindáveis, em agonia trucidante. Evoca-se Isaias. É o
“homem de tristeza e dor” (não há como não se envolver com o Coro, que parece
cantar mais com o coração que com a impostação vocal).
Segue-se o momento solene da celebração da Ceia do
Senhor, em que pontificam o pão e o vinho – Consubstanciação?
Transubstanciação? Bem mais que o sentido e propósito destes termos: “Isto é o
meu corpo” – é a verdade dele mesmo, o Cristo. O que Ele diz é Ele mesmo! Suas
palavras “são espírito e vida”. Como
a dizer-nos: “Isto que eu vos digo é o meu corpo e o meu sangue”. A verdade da Ceia do Senhor é o que
transcende o pão e o vinho. Então, não temos tanto de ater-nos a interpretações
desses elementos, que são, por vezes, variadas e contraditórias. Mas e,
sobretudo, investir-nos mesmo no Cristo.
Fomos convidados pela congregação a “vir à mesa”. A mesa
é para os díspares que se tornaram irmãos pela mesma fé. Lá estavam, por
exemplo, na última ceia, figuras preconceituosas como Natanael, radicais como
Pedro, pouco delicadas no falar como Tiago e João, incrédulas como Tomé,
desonestas como Judas Iscariotes. Porque o conjunto se fez assim, é um
mistério... Mas, verdade seja, ali estavam prefigurações de todos os contextos
humanos e eclesiásticos. O que é propriamente eclesial é o que se viu no culto da Capunga: alegria no Senhor,
comunhão de fé.
Houve momentos destacáveis na celebração. Ressalte-se,
por primeiro, a exposição da Palavra, com um tratamento homilético primoroso. Um
pregador leve, de coração tomado pela mensagem. Livre de amarras, de comando...
Um pregador nas “asas” do Espírito. Com autoridade ele declara: A mensagem de
Filipe há de ser a mensagem da Igreja de
Jesus Cristo, “até à consumação do século” – séculos, para nós, no plural.
A pregação de Filipe focava a pessoa de
Jesus. Ele é o centro de toda a sua pregação. Ele é a figura central de toda
a Escritura. Ele é a concretização do Reino de Deus – o Reino presente –,
escatologia realizada. Presente eterno e não futuro que se espera. É a
esperança que se vê, que “não é
esperança; pois o que alguém vê, como o espera?” (Rm 8.24). Portanto, o testemunho de
Filipe só poderia mesmo culminar em Redenção.
A culminância e o sentido da mensagem se fazem na cruz, mas não se consumam na
cruz, não se encerram na cruz. O calvário era a passagem amorável para a Redenção,
e quem diz redenção diz do amor de Deus. O nosso mavioso cantor deu ao seu
primeiro LP, hoje em CD, o título À
Sombra da Cruz. A sombra, todavia,
foi dissipada pela luz. O Cristo vivo é a Luz.
É aí que este despretensioso cronista (e não é gáudio
propriamente seu) vê Epifania. O Rouxinol voltou ao microfone e com a
costumeira singeleza entoou O Rosto de Cristo, peça musical tocante,
de autoria de Josias Menezes. Tocante ainda foi a participação da congregação
ao murmurar o hino, sem, contudo, abafar a voz do cantor. Elevou-nos às alturas
para melhor “contemplar” um Senhor não mais alquebrado, não mais moído, não
mais um rosto deformado, uma fronte ensanguentada, mãos dilaceradas, pés
transpassados, peito aberto. Não, esse não é o nosso Cristo! Não é mais um “Senhor
morto”; é o Senhor vivo! A morte já não conta. O que agora conta é a
ressurreição, a vida. “...Tragada foi a morte na vitória. Onde está, ó morte, a
tua vitória?”, é como a entende o Apóstolo Paulo (1Co 15.54, 55). É a palavra
de Is 25.8 se cumprindo.
O clímax do pensamento de Paulo se traduz numa palavra: Amor. Agora, “nada nos poderá do amor
de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor”. O amor de Deus é a mais completa, senão a
única explicação para o fenômeno vicário. A visão humana questiona essa
justiça. Mas é a justiça de Deus, que não se questiona. Amor é virtude
inexplicável. Sente-se e se pratica.
E que mais dizer? O culto, caprichosamente montado,
encerrou-se com a congregação cantando Ressurreição,
de Robert Lowry. O Salvador saiu, vigoroso, da sepultura. Venceu a morte com
grande glória. Por sua graça conquistou a vida eterna – sua vida, que Ele
injeta em nós. Essa dimensão de eternidade não é nossa, é a sua vida que nos é
dada.
Exalta-se a congregação: Ele saiu da sepultura! Triunfou
em glória. Venceu o poder da morte e agora nos dá a todos a vida. Ressurgiu!
Aleluia! Ressurgiu!
Recife, 04
de Agosto de 2014
(Texto
revisto em 30.08.2015)
Pastor Válter Sales
quinta-feira, 21 de maio de 2015
O ENCONTRO COM DEUS: Uma via de Mão Dupla
Em
artigo recente, que atende mais ao prazer de escrever, que, propriamente, à
consciência de estar produzindo algo relevante, eu disse que crer em Deus é também uma questão de vontade
humana. Precisamente isto: Crer, a
esta ótica, requer as disposições interiores do coração, e a expressão daquele
que crê – confessar. É a coragem de dizer aos quatro cantos: Eu creio! O
fechamento da questão vem das palavras de Jesus: “... todo aquele que nele crê
tem a vida eterna” (Jo 3.16) e “Todo aquele que me confessar diante dos homens,
também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus” (Mt 10.32). Se, por um lado, fé resulta da graça de
Deus, por outro, a vontade humana é condicionante da fé. A fé cristã não é
impositiva. Mais que isto: imposição é uma contraposição à natureza da fé. Daí
sua ampla consideração bíblica em confronto flagrante com qualquer
determinismo. Imperativo mesmo é o ato voluntário de crer.
Crer
é uma via de mão dupla. Uma via que traz Deus ao ser humano, outra via que leva
o ser humano a Deus. Crer, portanto, é um encontro divino-humano. O que aqui se pretende é privilegiar o
aspecto pessoal na relação com Deus, sem descurar qualquer outro arrazoado. Deus
e o homem agem juntos. Isto é Graça!
Há, decerto, nestas considerações, uma
recorrência às reservas da mente, do que ouvi nos tempos de minha juventude, de
algum pregador evangelista: “O Deus
que me fez sem eu querer, não me salvará se eu não quiser”. Agora, confesso,
com certo alívio, não me sentir um solitário pensante naquilo que, de
ordinário, não se diz, não por reserva ideológica ou precaução ocasional, mas
pelo simples fato de que nos tornamos comodamente repetitivos e, assim, quase
nunca ousados... Nada a obstar: a cautela convém aos que trabalham com ideias.
Valham-me o brilho, a unção e a
lógica de Brennan Manning, em seu livro Souvenirs of Solitude (Convite à Solitude).
Traduzido por Fabiano Medeiros. Obra recente, entre nós, lançada pela Editora
Mundo Cristão em 2010, 1a reimpressão em 2012, 190 p. Copyright de 1982, publicada
originalmente por Nav Press, Colorado, EUA. A obra traz, após cada capítulo,
orações em forma de poesia, de Sue Garmon. Ensevo e inspiração somam-se em sua
leitura.
O autor recorre a memoráveis quadros
bíblicos, como a parábola do grão de mostarda ou parábola da semente (Mc 4.26-33),
e, ainda, a autores renomados dos mundos religioso e artístico.
Começa por referir uma pergunta
pungente de um jovem judeu, convertido, e preocupado com a própria santidade.
Depois de uma longa espera e muita oração, dirigiu-se ele ao monge trapista,
psiquiatra mundialmente conhecido e também judeu cristão, Raphael Simon.
Convencido de que “não posso desperdiçar seu tempo com abstrações e
generalidades”, sem rodeios, cravou:
– “Tenho somente uma pergunta: Como posso me
tornar santo?”
– “Queira sê-lo!” – foi a resposta,
a um tempo lacônica e completa, de Simon, após apertar os olhos, inclinar-se
sobre a mesa e tomar as mãos do jovem amigo. Findou-se a entrevista.
De uma lenda de Horatio Alger, sobre
a própria diligência e disciplina espiritual do “faça você mesmo”, extraímos
algumas considerações que ilustram o propósito deste texto. “Ciente de que Deus
toma a iniciativa e de que por sua graça
somos salvos, estou agora trabalhando com a sinceridade, a seriedade e a
ferocidade da minha determinação em corresponder a sua graça salvadora”.
Acresce, à luz de Jo 15.5 – “... sem mim nada podeis fazer” –, que, “sem minha
cooperação, ele pode não fazer nada”. Creio que não se trata de uma teologia de
um Deus incapaz, mas de que a vontade humana é parte do processo salvífico, bem
como do crescimento espiritual. Não há uma vicinal para esta via.
Creio, por conseguinte, não ser difícil de
entender, que Cristo não nos santifica sem a nossa vontade. Manning declara
textualmente: “Creio que ele me dará ao final exatamente aquilo que eu escolher
e creio que as tendências e desejos implícitos em minhas escolhas serão meus,
irremediavelmente”. Não há negar que a oração constante e a prática diária da
virtude cristã exigem nossa participação ativa. Implicam o muito querer. Como
indicou Simon: “Queira sê-lo!”.
Martha Graham foi uma bailarina famosa.
Disse, numa perspectiva diferente, acerca do viver pela prática da vida,
o que aqui extraio, como parte de uma citação sua feita por Manning: “Em cada
um dos casos, é a execução dedicada de uma série de atos precisos, físicos ou
intelectuais, dos quais nasce a forma da realização, o senso de que alguém é o
que é, uma satisfação do espírito. (...) Praticar significa executar, repetidas
vezes, em face de todos os obstáculos, algum
ato de visão, fé e desejo. A prática é um meio para convidar a perfeição
desejada”. (Grifos pessoais)
Foi dito, acima, que Manning analisou a
parábola do Grão de Mostarda, de Mc 4.26-33. Vale aqui reproduzi-la.
O Reino de Deus é
semelhante a um homem que lança a semente sobre a terra. Noite e dia, estando
ele dormindo ou acordado, a semente germina e cresce, embora ele não saiba
como. A terra por si própria produz o grão: primeiro o talo, depois a espiga e,
então, o grão cheio na espiga. Logo que o grão fica maduro, o homem lhe passa a
foice, porque chegou a colheita.
Novamente ele disse:
Com que compararemos o
Reino de Deus? Que parábola usaremos para descrevê-lo? É como um grão de
mostarda, que é a menor semente que se planta na terra. No entanto, uma vez
plantado, cresce e se torna a maior de todas as hortaliças, com ramos tão
grandes que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra.
Jesus, como lhe era característico, com
serenidade e soberania, explica, em forma parafraseada por Manning: “O Reino
não é o que você esperava – uma intervenção deslumbrante e dramática de uma
glória irresistível. Como vê, ele começa muito pequeno, minúsculo como uma
semente de mostarda. E precisa de tempo para crescer; por isso, seja paciente”.
O Reino de Deus não é para os soberbos, ou enfatuados, que agem a partir das
próprias emoções e com a pressa determinada pelas próprias conveniências... O
Reino de Deus passa pela coragem de enterrar-se...,
como a semente, que é lançada no interior da terra. Reafirmo: Deus e o homem
agem juntos. Jesus, no pós-cruz, num túmulo; o homem, como semente que se
rende, em adequado solo.
Jesus narra outro episódio-possibilidade: “É
como um fazendeiro que planta uma semente e vai embora; mais tarde ela brota”.
Se se perguntar a esse fazendeiro o que ele faz após plantar a semente, ele
dirá: “Nada! Ela cresce sozinha”. O Reino de Deus cresce por si só. Deus
plantou e nada o impedirá de ser colhido. “Nem
heresias, nem cismas, erros vergonhosos, defeitos e fracassos morais da igreja;
nem se o orçamento estiver em desequilíbrio; nem em casos de perseguições ou
hecatombes nucleares – nada obstruirá o estabelecimento do Reino. É uma
garantia. O esforço humano é como nada comparado ao plano inexorável de Deus”.
Se somos convidados a participar, isso é glória para nós. É dádiva do Alto. Nenhum mérito nosso.
Onde a jactância?, indaga Paulo. Nossa participação será sempre de servos.
Há uma oração de Inácio de Loyola que, hoje,
recebe esta tradução: “Trabalhe como se
tudo dependesse de você e ore como se tudo dependesse de Deus”. A forma
original desta oração dizia: “Trabalhe
como se tudo dependesse de Deus e ore como se tudo dependesse de você”.
Manning interpreta as duas formas desta
maneira: “O que aconteceria em minha vida se eu trabalhasse como se tudo
dependesse de Deus e orasse como se tudo dependesse de mim? Acredito que
estaria seguro e livre de preocupações no ministério como nunca antes, sabendo
que ele é o Agente primordial como nunca antes, e eu oraria com uma urgência e
uma seriedade sem precedentes, pelo fato de ser catapultado e posto em
funcionamento pela aceleração do Reino”.
O autor termina seu texto com uma citação de
Paulo (2Co 8.12) – “Porque, se há prontidão, a contribuição é aceitável de
acordo com aquilo que alguém tem, e não de acordo com o que não tem”.
Obs.:
Notas elaboradas a partir do capítulo 9 do livro Convite à Solitude,
de Brennan Manning – Uma
Parábola Estonteante. São Paulo:
Editora Mundo Cristão, 2012. 190 p.
Com adaptações e acréscimos.
Texto reservado a estudo pessoal.
Recife, 21.05.2015
Válter Sales
sábado, 16 de maio de 2015
CRER: POR ONDE COMEÇAR?
Crer, definitivamente não é fácil. Crer exige a renúncia
de velhos e arraigados conceitos, muitos dos quais não apenas nos prendem,
como, ainda, nos desencaminham... Crer exige abrir de si mesmo, do
ensimesmamento, a fim de reconhecer alguém que é maior que nós mesmos, diante
de quem havemos de inclinar a mente e abrir o coração. É verdade que o coração
entra nesse processo. O mui acreditado Apóstolo Paulo escreveu: “Porque com o
coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação” (Rm
10.10). Aí aparece um novo elemento: a boca. Antes (verso 9) ele escreveu: “Se,
com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que
Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo”. Crer, a esta ótica, requer
as disposições interiores, do coração, e a expressão daquele que crê –
confessar. É a coragem de dizer, aos
quatro cantos, eu creio! O fechamento da questão vem das palavras de Jesus:
“... todo aquele que nele crê tem a vida eterna” (Jo 3.16).
Crer é uma via de mão dupla. Uma via que traz Deus ao ser
humano, outra que leva o ser humano a Deus. Crer, portanto, é um encontro
divino-humano. Deus já fez sua parte. Desde os relatos da criação, após os
quais deu-se a tragédia humana da pecaminosa queda, Deus tomou a iniciativa de
comunicar a redenção humana do seu pecado. Temos, aí, a promessa (Gn 3.15). Daí
por diante, todos os atos divinos tendem à concretização, paulatina, mas
segura; segura e objetiva, de nossa redenção. Isaias, como profeta messiânico,
fala-nos do nascimento do Filho-Redentor – “Porque um menino nos nasceu, um
filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será:
Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (9.6).
Mateus, o evangelista, fala-nos do anúncio do nascimento de Jesus Cristo, que
foi feito pelos anjos (1.18-25). Lucas, outro evangelista, fala-nos do próprio
nascimento (2.1-7). Veja-se a sequência: Promessa, Profecia, Anúncio,
Nascimento. Deus se comunica aos seres humanos por intermédio do Filho, o Emanuel,
que significa Deus conosco. Toda a trajetória bíblica é centralizada na Pessoa
Excelsa de Jesus Cristo. São emblemáticas suas palavras derradeiras na cruz: “Está
consumado!” (Jo 19.30). É significativo que os evangelistas sinóticos não
tenham anotado esta frase, dentre as palavras proferidas pelo Senhor
crucificado. Coube a João, o teólogo dos Evangelhos, anotá-la. O processo de
redenção, “conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo” (1Pe 1.20) e,
portanto, não uma medida de última hora, pois que poria por terra a onisciência
de Deus, enfim se consuma na morte expiatória, vicária, plena de sentido.
Mas há o outro lado dessa via: a diretriz a ser assumida
pelo homem. De começo, fazemos coro com o autor da carta aos Hebreus, num texto
clássico em que desfilam heróis da fé que viveram nos tempos do Antigo
Testamento, aqueles mesmos em que Deus fez a promessa (Gn 3.15). O autor, Paulo
ou Apolo, não sabemos, faz de Hebreus 11 uma nobre galeria de heróis da fé.
Antes, porém, de referi-los, constata: “De fato, sem fé é impossível agradar a
Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele
existe e que se torna galardoador dos que o buscam” (6). Crer é o começo dessa
caminhada. Experimentar quem é Deus, vem depois. É uma questão de fé. A fé vem
antes, como Deus veio antes, é o ensino de Paulo, em Ef 2.1 – “Ele vos deu vida,
estando vós mortos nos vossos delitos e pecados...”. O arrazoado é repetido nos
versos 4 a 10 – “Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor
com que nos amou, e estando nós mortos em nossos em nossos delitos, nos deu
vida juntamente com Cristo – pela graça sois salvos, e juntamente com ele, nos
ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para
mostrar, nos séculoss vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade
para conosco, em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e
isto não vem de vós; é dom de Deus; não vem de obras, para que ninguém se
glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as
quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas”. O ensino doutrinário
de Paulo não se confina nos versos 8 e 9 – objeto da pregação mais frequente –,
mas no verso 10. A vida é o espelho da fé verdadeira. Vem da lógica de Tiago que “a fé sem as
obras é morta” (Tg 2.14-18). Conquanto não vivamos por vista e sim pela fé, não
se há de encolher a mente diante da ampla doutrina paulina da conformidade... O
desespero de Lutero, frente a esta “epístola de palha”, dilui-se na convicção
de Tiago e de Paulo de que a fé necessita de caracterização.
A
história da graça é, portanto, a história de um Deus que se antecipa. A esta
luz, é razoável dizer que “não há caminho do homem para Deus, há somente
caminho de Deus para o homem”. O caminho é Jesus Cristo. Deus se nos dá a
conhecer através dele: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10.30). Neste caso, a deidade
é afirmada para contrapor a incredulidade dos judeus. Mas, no círculo mais
íntimo, o dos discípulos, a dúvida também se fez presente. Tomé, Filipe,
Natanael, nós outros, hoje, na idiologia ou na prática. Valha-nos o memorável
diálogo de Jesus com Filipe (Jo 14.7-11).
– Se
vós me tivésseis conhecido, conheceríeis também a meu Pai. Desde agora o
conheceis e o tendes visto.
–
Replicou-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta.
–
Disse-lhe Jesus: Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens
conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai?
–
Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos
digo não as digo por mim mesm; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas
obras.
–
Crede-me que estou no Pai, e o Pai, em mim; crede ao menos por causa das mesmas
obras.
Com boa dose de razão fala-se de duas
dimensões ou conotações da fé: uma cognitiva, ou assentimento intelectual – o
conhecimento; a outra é experiencial, que nos projeta na obediência, na vida.
Quem crê há de viver o que crê. A fé, que é compreendida, e neste sentido não é
irracional, é, igualmente, assinalada por marcas de serviço na vida de um
seguidor de Jesus Cristo. Somente assim ela é coerente.
Por onde ficou o tema que nos dirige?
Não ficou, ao contrário, acompanha-nos, na
sequência e na projeção de uma vida de fé obediente, de serviço adorador e
estimulante, nas boas obras para as quais fomos criados em Cristo – o modo de
expressar nosso amor ao próximo. Tudo isso pertence à demanda da nova vida em
Cristo e é o que lhe dá sentido e alento. Mas, como em nós, humanos, nada é
pleno, senão medeiado entre nossos limites tão estreitos, necessitamos de
começo, meio e fim. Então persiste a pergunta inicial: por onde começar?
Havemos de começar por crer em Deus. Começar pela inarredável necessidade de
crer em Deus. Inexorável mesmo, para que não expire o tempo de crer. “Sem fé é
impossível agradar a Deus”, diz-nos o texto de Hebreus, já citado acima.
Lembra-nos memorável entrevista concedida
pela escritora cearense, primeira mulher a integrar a Academia Brasileira de
Letras, Rachel de Queiroz, já na encosta crepuscular da vida terrena: “Eu não
aprendi a ter fé. Eu não consigo ter fé. É muito ruim não ter fé. A gente fica
só, em completo abandono em meio às provações e dificuldades da vida. É muito
ruim não ter fé”. Ao que parece, a famosa escritora se foi nesse profundo desalento
de não ter fé.
Fé também vem a ser um exercício de boa
vontade. É preciso querer ter fé. Não é algo que se imponha. Aliás, por
princípio, nenhuma experiência imposta é válida para a vida. O que se impõe
está muito mais próximo da mera encenação que da verdade. Crê-se com o coração,
e o coração jamais se move por uma lei
ou imposição. Nosso coração é agente de decisão. É ele quem enxerga,
aponta e define as demandas da nossa vida.
Recife,
16.05.2015
Pr.Válter
Sales
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