“Se quisermos ser semeadores
da paz, precisamos primeiro confrontrar nossas feridas e a escuridão em nossos
corações. Senão, estaremos sempre culpando outras pessoas pelos nossos
problemas, em vez de olhar para nós mesmos”.
(Em Busca de Francisco, de
Ian Morgan Cron, p. 125).
Oração não é uma prática circunstancial. Oração é devoção
– sentimento religioso próprio de quem vive uma experiência de caráter
permanente. O substantivo fomenta o verbo devotar, de que se inferem o
oferecimento em voto, a dedicação, a consagração, o tributo. Essas acepções percorreram
toda a Idade Média sem descurar de seu sentido estrito, rigoroso e exato. Transcendem
épocas, nutrindo a adoração de sucessivas gerações. São hoje ainda pertinentes.
Oração é, assim, o comportamento do cristão. Independe do
momento. Está no espírito da comunhão divino-humana. Pode ocorrer a qualquer
hora, em qualquer circunstância, pois que é prática do espírito. Se nessa
prática nós desvanecemos, nalguma ocasião, o Espírito não apenas nos induz,
como nos ensina a orar da forma como convém (Rm 8.26). Fá-lo com a força das
próprias entranhas, é assim que Paulo expressa seu empenho e seu afã de nos
tornar orantes naturais.
A lógica nos leva a mais uma inferência: é aí que a alma
se desnuda diante de Deus. Derrama-se. Desvencilha-se de quaisquer óbices.
Faz-se oblação. Permite-se perscrutar até os limites últimos. “Como poderia eu
ausentar-me do teu Espírito?” – indaga o salmista Davi (Sl 139). Aquele que
sonda nossos corações e pesa nosso espírito, também conhece nossos
recônditos... Ele vai aonde não vamos e penetra naquilo em que nem nós mesmos
nos conhecemos.
Que nos resta, senão prostrar-nos diante dele, em absoluta
e desimpedida genuflexão, sem as amarras do tempo, sem as demandas
neurotizantes da vida moderna, nos grandes centros? Ora bem quem ora sempre,
aquele que tem em si essa vocação. É a oração no espírito, a verdadeira oração,
na qual, por vezes, o Espírito fala mais que o homem. É nesse nível de comunhão
com o Altíssimo que todas as posturas formais e toda preocupação estética se
diluem.
Em suma, oração é Deus presente em nossa postura
adoradora. Ninguém é solitário enquanto ora. Assim, podemos afirmar que a
prática da oração não é pontual, pois é comunhão com Deus. Lembra-nos a
asseveração dos chamados psicólogos da religião, que um cristão amadurecido ora
não para pedir alguma coisa, mas para comungar com Deus.
Pois, oração não pode ser prática de gente apressada...,
acossada pelas circunstâncias. Orar é estar com Deus. É descansar em Deus. É
debruçar-se nos braços do Senhor e aí ficar. É senti-lo num aconchego de Pai. Oração
faz-se com a dinâmica da vida. É sua demanda principal.
Há alguns anos, em Salvador (BA), no período do meu pastorado de 27
anos na Igreja Batista da Graça, conheci uma pessoa muito especial. Não
era membro da igreja, mas passou a congregar ali e a ser atendida por
mim de uma forma também muito especial. Era tão extraordinária que a
atendia não no gabinete pastoral, mas em minha própria casa. Seu nome:
Lúcia Rocha. No nosso primeiro contato ela contou-me a história de sua
sofrida vida: havia perdido o esposo, Adamastor (proprietário da loja
mais refinada de roupas e artigos masculinos de Salvador, situada na Rua
Chile); depois perdera sua filha Ana Marcelina na adolescência, vítima
da leucemia; depois, num acidente com um elevador a outra filha, a atriz
Aneci Rocha. Fizemos uma amizade muito grande e aprendi muito com a
determinação e resistência de Lúcia, diante destas e doutras
adversidades que enfrentara como cristã evangélica.
Seu grande orgulho era o filho, Glauber Rocha, genial cineasta e
expressão maior do cinema novo, diretor de filmes instigantes como
Barravento, Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe, A Idade da
Terra e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro. Era o ano de 1981 e
ele se encontrava em Portugal, adoentado e com viagem marcada de volta
ao Brasil.
Lúcia me dizia: quero que vocês se tornem amigos, vocês vão se dar
muito bem, tenho certeza. E fiquei alimentando a expectativa da chegada
de Glauber a fim de criarmos um vínculo de amizade. Para tristeza dela,
minha e de todos aqueles que amavam a qualidade da sétima arte nativa de
qualidade indiscutível, Glauber chegou morto. Era a quarta grande e
dolorosa perda de Lúcia e eu estava ali para ajudá-la a superar, com sua
fé em Deus, a morte ascendente que é sempre a morte de um filho. Ela
vivera essa dor por três vezes.
O grande gênio do cinema foi educado numa atmosfera evangélica. Por
isso, sempre que voltava a Salvador ia às origens, Vitória da Conquista,
e sempre visitava a Segunda Igreja Batista da cidade. Ao chegar ao
templo o velho pastor João Norberto já sabia que tinham de cantar o hino
preferido dele, Corajosos 469 do Cantor Cristão: Um pendão real vos
entregou o Rei a vós soldados seus. Corajosos, pois de tudo o defendei
marchando para o céu. Com valor sem temor, por Cristo prontos a sofrer.
Bem alto erguei o seu pendão, firme sempre até morrer.
Se a congregação cantava arrastado, ele reclamava e pedia que se cantasse o hino com o espírito marcial que lhe é próprio.
Glauber admirava a integridade proposta pela fé cristã, daí sua
preferência por esse hino. Não sei qual seria sua reação hoje diante do
produto da massificação evangélica onde a qualidade de vida deixa tanto a
desejar. Não sei como reagiria, por exemplo, vendo um rapaz vendendo
discos evangélicos piratas num carrinho onde, bem visível, estava
escrito: até aqui nos ajudou o Senhor. Além de cometer um crime o moço
fazia de Deus seu cúmplice. Há alguns anos não vejo Lúcia. Hoje, mesmo
com a idade avançada, 92 anos, ela preserva o acervo das obras do filho
Templo Glauber fazendo com que a memória do bom cinema brasileiro não
se perca na poeira do esquecimento. Em novembro estarei indo a Salvador,
tomara que me seja possível reencontrá-la para recordarmos os velhos
tempos e nos lamentarmos da expectativa que alimentamos e que não
conseguimos concretizar: minha amizade com Gláuber. Uma pena!
Sobre o autor:
Társis Wallace é pastor da Igreja Batista Betel, em Jaraguá
http://www.ojornalweb.com/2011/10/12/uma-expectativa-que-nao-se-concretizou-tarsis-wallace/
CorajososCantor Cristão
Um pendão real vos entregou o Rei, A vós soldados seus! Corajosos, pois de tudo o defendei, Marchando para os céus!
Com valor, sem temor, Por Cristo prontos a sofrer! Bem alto erguei o seu pendão, Firme sempre até morrer!
Eis formados já malignos batalhões, Do grande usurpador! Revelai-vos hoje bravos campeões; Avante sem temor.
Com valor, sem temor, Por Cristo prontos a sofrer. Bem alto erguei o seu pendão, Firme sempre até morrer.
Oh ! sejamos todos a Jesus leais, E a seu real pendão Os que na batalha sempre são fiéis Com Ele reinarão.
Com valor, sem temor, Por Cristo prontos a sofrer Bem alto erguei o seu pendão, Firme sempre até morrer